| Título: Hiroshima | Autor: John Hersey | |
| Edição: 1 | Editora: Companhia das Letras | Cidade: São Paulo |
| Ano: 2002 | Páginas: 176 | Preço: R$ 37,80 |
No dia 6 de agosto de 1945, a bomba atômica caía sobre a cidade de Hiroshima. Um ano depois, o jornalista John Hersey visitou a cidade a fim de escrever uma reportagem para a revista The New Yorker sobre os efeitos da bomba, que deu origem ao livro Hiroshima.
Hersey se valeu de recursos literários na produção da matéria, narrando os acontecimentos de Hiroshima através de depoimentos de seis sobreviventes, ou, como os japoneses preferiam chamar, hibakusha (“pessoas atingidas pela explosão”): Wilhelm Kleinsorge, padre jesuíta alemão, Toshiko Sasaki, secretária na Fundição de Estanho do Leste da Ásia, Masakazu Fujii e Terufumi Sasaki, médicos, Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista, e Hatsuyo Nakamura, dona de casa, viúva de um alfaiate.A escolha de pessoas “comuns” para os relatos, sem, em nenhum momento, recorrer a aspas de autoridades, torna o livro uma experiência mais humana e pessoal – fato reforçado pelo editor, ao acrescentar no livro fotos das personagens. Com uma escrita simples e fluída, Hersey concilia os dados de sua intensa apuração, o sofrimento dos entrevistados e tudo o que elas passaram e viram, narrando com a imparcialidade de um jornalista até as cenas mais chocantes – porém, quando imaginamos os fatos narrados, não nos livramos dos calafrios e náuseas.
Analisando o livro com certo cuidado, é possível perceber que aquelas personagens foram escolhidas por um motivo. A preferência por médicos e religiosos, que têm como função e objetivo ajudar outras pessoas, revela o desejo do autor de retratar a tragédia sob uma perspectiva mais ampla, já que as pessoas citadas, ao se verem vivas e quase sem ferimentos, se prestam a auxiliar e cuidar – na medida do possível – daqueles que estavam a sua volta. Tal comportamento acaba nos dando não só a história do indivíduo, como a de todas as outras pessoas que ele encontrou.
A divisão dos capítulos feita por Hersey – quatro para os depoimentos que já constavam na reportagem da The New Yorker e um quinto com depoimentos das mesmas personagens quarenta anos após o ataque – separa a tragédia em momentos cruciais: a queda da bomba (Um clarão silencioso), seus efeitos imediatos (O fogo), uma revisão dos acontecimentos (Investigam-se os detalhes), a reorganização das coisas e retomada da vida (Flores sobre ruínas) e a continuação dessa (Depois da catástrofe). Essa disposição, combinada com o ritmo que ele impõe à leitura, cortando os depoimentos de acordo com o andamento da catástrofe e não com as personagens, deixa o leitor atento a detalhes específicos e para o acontecimento – a queda da bomba – em si. Ou seja, lemos os depoimentos fragmentados, sobre o mesmo momento, contado pelos seis personagens diferentes em locais diferentes – exceto quando alguns deles se encontram.
Como o último capítulo do livro foi escrito 40 anos depois dos primeiros, Hersey já tem outro estilo de escrita, e acaba se esquecendo que aquelas pessoas provavelmente se lembrarão e terão dificuldades para conversar sobre aquele 6 e agosto para sempre. Mesmo no fim do quarto capítulo, escrito à época do acidente, ele mostra um pouco de disso – Hersey alega que Toshio Nakamura, filho de Hatsuyo Nakamura e igualmente hibakusha, “falava sobre a experiência com desembaraço e até com alegria”, como se o fato de ele ser uma criança alterasse sua percepção diante de tanta catástrofe.
Considerado uma referência para jornalistas ou qualquer um que eventualmente queira saber mais sobre o assunto, porém pouco recomendado para leitores de estômago fraco, Hiroshima é uma narração concisa e o mais próxima possível da tragédia que até hoje é tida como um ato estratégico por parte dos EUA, quando não passou de uma prática desumana e sanguinária.
