segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Jornalismo e dores de estômago

Título: HiroshimaAutor: John Hersey
Edição: 1Editora: Companhia das LetrasCidade: São Paulo
Ano: 2002Páginas: 176Preço: R$ 37,80


No dia 6 de agosto de 1945, a bomba atômica caía sobre a cidade de Hiroshima. Um ano depois, o jornalista John Hersey visitou a cidade a fim de escrever uma reportagem para a revista The New Yorker sobre os efeitos da bomba, que deu origem ao livro Hiroshima.

resenha livro hiroshimaHersey se valeu de recursos literários na produção da matéria, narrando os acontecimentos de Hiroshima através de depoimentos de seis sobreviventes, ou, como os japoneses preferiam chamar, hibakusha (“pessoas atingidas pela explosão”): Wilhelm Kleinsorge, padre jesuíta alemão, Toshiko Sasaki, secretária na Fundição de Estanho do Leste da Ásia, Masakazu Fujii e Terufumi Sasaki, médicos, Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista, e Hatsuyo Nakamura, dona de casa, viúva de um alfaiate.

A escolha de pessoas “comuns” para os relatos, sem, em nenhum momento, recorrer a aspas de autoridades, torna o livro uma experiência mais humana e pessoal – fato reforçado pelo editor, ao acrescentar no livro fotos das personagens. Com uma escrita simples e fluída, Hersey concilia os dados de sua intensa apuração, o sofrimento dos entrevistados e tudo o que elas passaram e viram, narrando com a imparcialidade de um jornalista até as cenas mais chocantes – porém, quando imaginamos os fatos narrados, não nos livramos dos calafrios e náuseas.

Analisando o livro com certo cuidado, é possível perceber que aquelas personagens foram escolhidas por um motivo. A preferência por médicos e religiosos, que têm como função e objetivo ajudar outras pessoas, revela o desejo do autor de retratar a tragédia sob uma perspectiva mais ampla, já que as pessoas citadas, ao se verem vivas e quase sem ferimentos, se prestam a auxiliar e cuidar – na medida do possível – daqueles que estavam a sua volta. Tal comportamento acaba nos dando não só a história do indivíduo, como a de todas as outras pessoas que ele encontrou.

A divisão dos capítulos feita por Hersey – quatro para os depoimentos que já constavam na reportagem da The New Yorker e um quinto com depoimentos das mesmas personagens quarenta anos após o ataque – separa a tragédia em momentos cruciais: a queda da bomba (Um clarão silencioso), seus efeitos imediatos (O fogo), uma revisão dos acontecimentos (Investigam-se os detalhes), a reorganização das coisas e retomada da vida (Flores sobre ruínas) e a continuação dessa (Depois da catástrofe). Essa disposição, combinada com o ritmo que ele impõe à leitura, cortando os depoimentos de acordo com o andamento da catástrofe e não com as personagens, deixa o leitor atento a detalhes específicos e para o acontecimento – a queda da bomba – em si. Ou seja, lemos os depoimentos fragmentados, sobre o mesmo momento, contado pelos seis personagens diferentes em locais diferentes – exceto quando alguns deles se encontram.

Como o último capítulo do livro foi escrito 40 anos depois dos primeiros, Hersey já tem outro estilo de escrita, e acaba se esquecendo que aquelas pessoas provavelmente se lembrarão e terão dificuldades para conversar sobre aquele 6 e agosto para sempre. Mesmo no fim do quarto capítulo, escrito à época do acidente, ele mostra um pouco de disso – Hersey alega que Toshio Nakamura, filho de Hatsuyo Nakamura e igualmente hibakusha, “falava sobre a experiência com desembaraço e até com alegria”, como se o fato de ele ser uma criança alterasse sua percepção diante de tanta catástrofe.

Considerado uma referência para jornalistas ou qualquer um que eventualmente queira saber mais sobre o assunto, porém pouco recomendado para leitores de estômago fraco, Hiroshima é uma narração concisa e o mais próxima possível da tragédia que até hoje é tida como um ato estratégico por parte dos EUA, quando não passou de uma prática desumana e sanguinária.

Mil e Uma Utilidades

“O primeiro mandamento da nossa profissão é a verdade, ou a busca dela


Jornalista por formação, professor por acidente e escritor por necessidade, Celso Unzelte, 42 anos, é um exemplo e uma lição para todos aqueles que pensam "não ter tempo para nada". Disciplinado, consegue cumprir todas as funções a que se propõe: professor de Técnicas e Gêneros Jornalísticos I na Faculdade Cásper Líbero, comentarista da ESPN, colunista no site do Yahoo e do jornal “Diário do Comércio”, fora outros trabalhos esporádicos. Para completar, é casado e pai de três filhos.

Cansou só de ler? Pois é. O mais curioso é que Unzelte não sonhava em ser jornalista, longe disso: “Eu queria ser desenhista de quadrinhos, jornalista nunca.” diz, e completa “Quando cheguei ao colegial e vi que não tinha 'faculdade de quadrinhos', mas tinha de jornalismo, decidi que era o que eu ia fazer, até porque sempre gostei de ler e escrever.”

E foi assim, ao acaso, que hoje temos um jornalista como ele - que prefere a história ao factual. “Eu sou um historiador frustrado” diz. “Tudo o que eu faço no jornalismo as pessoas relacionam ao futebol, quando na verdade é histórico. Esse é o meu interesse maior”... “Me arrependo de ter começado o curso de história na USP e não ter terminado”. Porém, mesmo não sendo formado, Unzelte escreveu livros que lhe exigiram a atenção de um historiador apaixonado pelo que faz. Como o Almanaque do Timão, o Livro de Ouro do Futebol, o Grandes Clubes Brasileiros, Os Dez Mais do Corinthians, O Grande Jogo, e o mais recente – Timão: 100 Anos, 100 Jogos, 100 Ídolos, que comemora o centenário do seu time do coração desde a infância: Sport Club Corinthians Paulista.

Casado com Patrícia, uma colega de profissão, ele destaca as vantagens e desvantagens de ser conjugado com uma jornalista: “Ajuda quando eu ligo às 5 da manhã e falo 'vá dormir, hoje não chego a tempo' e ela dorme porque sabe que eu realmente estou fechando uma revista, ela sabe como é. E muitas vezes é ela quem liga. Atrapalha porque de vez em quando falamos tanto de trabalho que um tem que policiar o outro. Mas acho que conseguimos equilibrar bem, afinal estamos juntos há 14 anos”. Porém, apesar de compartilharem da profissão, não conseguem trabalhar em um mesmo projeto: “Não é possível por minha culpa. Eu tenho o péssimo hábito de achar que, por termos intimidade, posso me dar ao direito de falar certas coisas que às vezes ferem. E eu não posso.” afirma.

Com relação ao futuro do jornal impresso, dado o surgimento da internet e as novas mídias, Unzelte é categórico: “Não acho que o jornal impresso vai morrer, e sim mudar. Não faz mais sentido o jornal achar que é o biscoito Tostines – que está sempre fresquinho” brinca. “Ele não traz notícia. O jornal vai mudar no sentido de se tornar mais interpretativo, vai entrar na seara das revistas, e as revistas vão entrar na seara dos livros - e é por isso que vocês vêem hoje nas bancas tantas revistas sobre História. É um efeito dominó”. Continuando as previsões, fala sobre os jornalistas, que agora não precisam ser formados no curso para exercer a profissão: “Vão continuar privilegiando quem tem diploma, mas, infelizmente, já que ele não é obrigatório, vamos sofrer a chantagem barata de pagarem cada vez menos pelo nosso trabalho. É só a gota d'água num processo que vem de longe.”

Por fim, Unzelte confessa que sonha em ter a própria revista: “Eu queria fazer duas: uma de história do futebol e outra da cidade de São Paulo. Para esta inclusive eu já tenho até nome: Planeta São Paulo”... E nós estaremos aqui, só esperando esse sonho acontecer, para prestigiar mais um trabalho desse que é o verdadeiro bombril – mil e uma utilidades.

Guerra Fria e Extraterrestres

O conto "O Grande Terminal Central", escrito pelo físico nuclear Leo Szilard, narra a saga de um grupo de extraterrestres no momento em que descobrem o planeta Terra e nela pousam. Este, porém, estava completamente deserto. Logo os extraterrestres, perplexos, descobrem que houve vida naquele planeta algum dia e tentam descobrir a causa de tamanha devastação. Depois de descartar a possibilidade de o responsável ter sido um vírus ou bactéria, tamanho o estrago, um dos integrantes levanta a hipótese e ter ocorrido um conflito nuclear entre os habitantes dos continentes Euro-asiático e Americano – que teriam se atacado até a destruição do planeta inteiro. Porém, o narrador se mostra um tanto quando descrente com relação a essa hipótese, pois afirma que o planeta foi habitado por seres racionais e que estes, portanto não enriqueceriam urânio apenas para causar uma guerra.

O conflito narrado é muito semelhante às tensões do período da Guerra Fria – com a polarização dos blocos capitalista e comunista - tendo como seus principais representantes os Estados Unidos e a União Soviétia - e a ameaça de explosão de bombas nucleares a qualquer momento, decorrente da corrida armamentista. A disputa por poder bélico entre as duas potências foi tamanha que gerou armamento nuclear capaz de destruir o planeta mais de uma vez.
O tema abordado por Szilard foi, portanto, nada mais nada menos que o retrato do que poderia ter restado da Terra se todas as tensões e promessas da Guerra Fria tivessem se concretizado, somando a esse relato uma crítica contra a humanidade, que se deixou enlouquecer a ponto de levar em consideração a destruição total do planeta.

Apesar da crítica ardilosa contida no conto e posição contra a bomba atômica, o Szilard teve participação em desenvolvimento. O que pode, de certa forma, justificar tal posição e nos fazer pensar a respeito da Guerra Fria, suas consequências e a consequências que poderia ter tido.

Samsa, Kafka e Outros Demônios

Em “A Metamorfose” de Franz Kafka, Gregor Samsa, um caixeiro viajante, acorda um determinado dia sob a forma de um inseto. Vale lembrar que o romance não usa de metáforas. Gregor vira, literalmente, um inseto, e as reações em torno desse fato são igualmente literais.

O mais chocante são os pais e irmã de Gregor que, assim que ele se torna um inseto, passam automaticamente a desconsiderá-lo como alguém da família. Mesmo a irmã, que de início tenta cuidar dele ou pelo menos mantê-lo vivo, esquece que aquela forma asquerosa um dia foi Gregor. Não que antes da transformação houvesse uma relação familiar mais estreita – Gregor era mais um empregado da própria família do que um membro dela propriamente dito, só fazia trabalhar para sustentá-la e pagar a dívida do pai. Mas, após a transformação, o pouco de sentimento que existia desaparece. A raiva maior é de ter a família inteira que começar a trabalhar, quando os pais alegavam ser fisicamente incapazes e a irmã muito nova. E Gregor, conseguindo entender o que eles diziam, mas sem conseguir se comunicar, assume uma posição de impotência, não conseguindo sequer sair do quarto.

Porém, na obra de Kafka, mais importante que saber os fatos é saber os porquês. Gregor não toma a forma de um inseto, simplesmente. A metamorfose é resultado de um processo pelo qual ele próprio se submeteu: a opressão que sofria por parte de seu trabalho e sua família - que no romance apresentam uma forte semelhança, como se fizessem parte do mesmo universo - o constante desejo de agradá-los e tentar manter a vida de todos em ordem. Mais dia, menos dia, ele acabaria sucumbindo à pressão e ao sentimento de inferioridade, impotência e falta de voz, e essa derrota se materializa em seu físico. Aliás, o personagem impotente é muito presente nas obras de Kafka, aquele que não consegue, por conta própria, sair de sua prisão e submissão a um poder maior para poder, finalmente, controlar a própria vida. Gregor é apenas mais um exemplo.

Ironicamente, a única tentativa de Gregor de se libertar de sua prisão é de certa forma a causadora de sua morte. Pois, ao sair do quarto na hora do jantar, enquanto a família e os inquilinos da casa ouviam sua irmã tocar violino, ele se deixa perceber por um destes que, enojado, causa um escândalo e recusa-se a pagar a estadia na casa. Os outros dois inquilinos logicamente concordam e o pai de Gregor, diante do enorme prejuízo que ele causa, não suporta mais ter que conviver com aquela forma asquerosa e tenta matá-lo, jogando-lhe maçãs. A partir desse episódio Gregor percebe que se tornou um peso para a família, que o odeia e não ligaria de vê-lo morto. Gregor se tranca no quarto e definha até a tão esperada morte, libertando tanto sua família da dependência crônica que tinham por ele, quanto ele mesmo de seus demônios internos e opressores externos.

Kafka narra um universo de desgraças de forma natural, fazendo-nos pensar e repensar a respeito de convenções tradicionais e a crueldade que nelas existe.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Experiências Literárias

senhor das moscas livroIntrigante, angustiante e simples. É assim que adjetivo o livro vencedor do Nobel de Literatura de 1983, do autor William Golding, intitulado "O Senhor das Moscas", que terminei de ler há poucos dias.

O livro narra a jornada de crianças britânicas que, vítimas de um acidente aéreo, veem-se isoladas em uma ilha aparentemente deserta, longe da sociedade ou qualquer um que possa salvá-los. A necessidade de um líder logo é colocada em evidência entre as crianças que, reunidas, elegem o loiro e sensato Ralph para organizá-los.

Ralph - que eu aqui considero como a representação dos valores da sociedade ocidental - é odiado pelo, ruivo e de gênio fortíssmo, Jack - que eu aqui considero como a representação dos instintos, a libertação dos valores que nos são ensinados.

Desde as primeiras páginas é possível perceber a disputa por poder entre as duas filosofias. Ralph sempre auxiliado por Porquinho - a razão humana - e Jack apoiado pelos nomeados "caçadores" da ilha - aqueles que sucumbiram ao instinto. E as campanhas são claras: a sociedade deseja um enorme sinal de fumaça, como uma fogueira, para todos serem salvos, e o instinto deseja a sobrevivência imediata, como caçar porcos e camuflar-se pintando o corpo. E essa polarização segue até o fim do livro.

Porém, mais do que uma luta entre os extremos, o livro é uma lição no que diz respeito à raça humana e seu comportamento. O fato de serem todos apenas crianças dá liberdade ao autor para explorar os mais variados sentimentos, que somente elas poderiam exteriorizar com tanta intensidade. Os personagens são tipificados, cada um representando as personalidades mais comuns de nossa sociedade. Isso e a sequência de episódios do livro, que não convêm descrever aqui, dão liberdade ao leitor para explorar e especular uma enorme lista de teorias - como a que escrevi.

Torço para que vocês estejam perguntando o porquê, afinal, do título. Se estiverem, respondo, numa última tentativa de convencê-los, que é algo que só pode ser esclarecido lendo, não cabendo a mim estragar a surpresa.

Sendo assim, "Senhor das Moscas" é um livro mais do que recomendado para aqueles que, como eu, adoram saber mais sobre si mesmos.