segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Samsa, Kafka e Outros Demônios

Em “A Metamorfose” de Franz Kafka, Gregor Samsa, um caixeiro viajante, acorda um determinado dia sob a forma de um inseto. Vale lembrar que o romance não usa de metáforas. Gregor vira, literalmente, um inseto, e as reações em torno desse fato são igualmente literais.

O mais chocante são os pais e irmã de Gregor que, assim que ele se torna um inseto, passam automaticamente a desconsiderá-lo como alguém da família. Mesmo a irmã, que de início tenta cuidar dele ou pelo menos mantê-lo vivo, esquece que aquela forma asquerosa um dia foi Gregor. Não que antes da transformação houvesse uma relação familiar mais estreita – Gregor era mais um empregado da própria família do que um membro dela propriamente dito, só fazia trabalhar para sustentá-la e pagar a dívida do pai. Mas, após a transformação, o pouco de sentimento que existia desaparece. A raiva maior é de ter a família inteira que começar a trabalhar, quando os pais alegavam ser fisicamente incapazes e a irmã muito nova. E Gregor, conseguindo entender o que eles diziam, mas sem conseguir se comunicar, assume uma posição de impotência, não conseguindo sequer sair do quarto.

Porém, na obra de Kafka, mais importante que saber os fatos é saber os porquês. Gregor não toma a forma de um inseto, simplesmente. A metamorfose é resultado de um processo pelo qual ele próprio se submeteu: a opressão que sofria por parte de seu trabalho e sua família - que no romance apresentam uma forte semelhança, como se fizessem parte do mesmo universo - o constante desejo de agradá-los e tentar manter a vida de todos em ordem. Mais dia, menos dia, ele acabaria sucumbindo à pressão e ao sentimento de inferioridade, impotência e falta de voz, e essa derrota se materializa em seu físico. Aliás, o personagem impotente é muito presente nas obras de Kafka, aquele que não consegue, por conta própria, sair de sua prisão e submissão a um poder maior para poder, finalmente, controlar a própria vida. Gregor é apenas mais um exemplo.

Ironicamente, a única tentativa de Gregor de se libertar de sua prisão é de certa forma a causadora de sua morte. Pois, ao sair do quarto na hora do jantar, enquanto a família e os inquilinos da casa ouviam sua irmã tocar violino, ele se deixa perceber por um destes que, enojado, causa um escândalo e recusa-se a pagar a estadia na casa. Os outros dois inquilinos logicamente concordam e o pai de Gregor, diante do enorme prejuízo que ele causa, não suporta mais ter que conviver com aquela forma asquerosa e tenta matá-lo, jogando-lhe maçãs. A partir desse episódio Gregor percebe que se tornou um peso para a família, que o odeia e não ligaria de vê-lo morto. Gregor se tranca no quarto e definha até a tão esperada morte, libertando tanto sua família da dependência crônica que tinham por ele, quanto ele mesmo de seus demônios internos e opressores externos.

Kafka narra um universo de desgraças de forma natural, fazendo-nos pensar e repensar a respeito de convenções tradicionais e a crueldade que nelas existe.

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